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Johnny Depp: “A minha avó morreu aos 102 anos e mascou tabaco até ao fim”
agosto 18, 2013

Em entrevista ao site português Sol (“O Cavaleiro Solitário” estreou dia 08 de agosto em Portugal), Johnny fala sobre os seus mestres, os seus antepassados índios e o acidente de cavalo que por pouco não o matou. Apaixonado pela música, o multifacetado ator encontra-se neste momento dirigindo um documentário sobre Keith Richards, o guitarrista dos Rolling Stones que inspirou o personagem de Depp na saga Piratas do Caribe.

Leia a entrevista:

Como surgiu este projeto do filme “O Cavaleiro Solitário”?

Estava fazendo “Diário de um Jornalista Bêbado” [inspirado no livro de Hunter S. Thompson] em Porto Rico quando encontrei uma pintura de um guerreiro nativo americano com riscos na cara. Perguntei ao meu maquiador, Joel Harlow, que é um verdadeiro mago, se conseguia fazer algo parecido. Fizemos as pinturas faciais e fui com o fotógrafo, Peter Mountain, para umas ervas daninhas nojentas fazer algumas fotos. Quando o Peter as mostrou, pensei: “Boa, acho que conseguimos encontrá-lo. Agora temos de lhe dar vida”. Liguei para o Jerry Bruckheimer e lhe disse: “Quando voltar a Los Angeles gostaria de me sentar com você”. Nos encontramos e lhe entreguei cinco ou seis fotografias, e o Jerry: “Fantástico. Quem é este?”. E eu lhe disse: “Sou eu!”. Jerry perguntou se podia levar as fotos com ele. Também as mostrei a Dick Cook [antigo presidente dos Estúdios Walt Disney] e a reação foi positiva. Todo mundo ficou entusiasmado, eu incluído, e fui falar com o Gore [Verbinski] para ser o diretor.

O visual de Tonto, o seu personagem, se manteve semelhante a essa primeira imagem que criou, inspirada na pintura do guerreiro?

Sim, embora na época eu não tivesse o guarda-roupa adequado. Estava com o tronco nu com coisas penduradas no corpo. A única coisa que o Joel mudou foi adicionar textura à pintura branca de forma a se parecer com lama ou argila.

E o pássaro na cabeça de Tonto, de onde veio?

Na pintura, mesmo por trás do guerreiro, aparece um corvo a voar, e à primeira vista pensei que o corvo estava na cabeça dele. Não estava, mas achei que o melhor era pegar um pássaro morto e o colocar em cima da minha cabeça, como se fosse o espírito que me guiava. Todos deveriam experimentar!

Quanto tempo passou na sala de maquiagem?

Duas horas por dia. Às vezes decidia levar a maquiagem para casa e assim poupava tempo de manhã. [risos] Não era confortável e parecia esquisito, mas acho que compensou.

Disse em outra ocasião que o personagem de Jack Sparrow lhe apareceu completamente definido. Aconteceu o mesmo com Tonto?

Muito perto disso. Assim que começamos a fazer desenhos e coisas desse tipo, as ideias aparecem. Há sempre mais uma bugiganga ou um momento engraçado que se podem acrescentar, mas o essencial já estava lá.

Quando era criança assistia “O Cavaleiro Solitário”?

Sim. “O Cavaleiro Solitário” era uma daquelas séries que vemos regularmente na TV quando somos crianças. E sempre me identifiquei com o Tonto. Mesmo criança me questionava porque o índio tinha de ser o parceiro e não o herói. Além disso, quando ainda era pequeno, me disseram que corria sangue índio na nossa família… Ninguém sabe quanto – talvez muito pouco, embora minha avó materna tivesse esse ar, com tranças e tudo. Era uma mulher linda que viveu até os 102 anos e mascou tabaco até o dia em que morreu.

Como se chamava?

Chamava-se Mae Sloan.

Foi ela que lhe falou sobre os antepassados índios?

Sim. Acho que foi por isso que quis aprender mais sobre os índios nativos americanos e que tentei também descobrir tudo o que conseguia sobre os meus antepassados. Assistia os filmes de cowboys e me confundia os índios aparecerem sempre como os selvagens, os maus da fita. Por isso, quando tinha cinco, seis anos e brincava de índios e cowboys, queria sempre ser um índio. Passados todos estes anos estou no papel de Tonto e a única coisa que podia fazer era representá-lo com grande integridade e dignidade e, ao mesmo tempo, com um grande senso de humor com o homem branco e com as coisas que ele faz. É a minha homenagem aos índios e uma maneira de compensar a forma como foram maltratados pelo cinema ao longo de anos.

Você já disse que há figuras-chave na sua carreira – Tim Burton, Jerry Burckheimer, Keith Richards, Bruce Robinson – às quais se sente ligado a um nível profundo. Gore Verbinski também faz parte desse grupo restrito?

Sem dúvida.

Como sua colaboração se tornou tão boa?

Quando se trabalha com alguém a este nível, temos de ter um elemento de confiança. E isso não é uma coisa que se adquira facilmente, tem de se conquistar. Tive a sorte de conquistar a confiança destes homens, que descreveria como grandes amigos, grandes professores – ou melhor, grandes mestres – de Hunter S. Thompson a Marlon Brando, do Bruce Robinson ao Tim Burton e ao Gore Verbinski. Estabelecemos laços especiais que nos permitem adivinhar o que o outro quer.

E onde é que entra o Jerry Bruckheimer?

O Jerry é uma daquelas pessoas como o Dick Zanuck – abençoado seja –, que foi o grande protetor do Tim Burton. Com o Jerry acontece o mesmo. Quando vemos na tela ‘Produção de Jerry Burkheimer’ sabemos o que significa, porque ele protege a história e esforça-se em prol do filme. Ele ajuda os artistas por trás do projeto. Está sempre lá cem por cento. Tem uma inteligência incrivelmente apurada e aparece sempre com ideias engraçadas.

Você já sabia montar a cavalo. Teve de preparar esse aspecto específico para o papel de Tonto?

Um pouco. Já montei antes para fazer alguns filmes e me saí sempre bastante bem. Não me dou mal com cavalos. Mas os acidentes são coisas que acontecem.

Pode nos contar do acidente que ocorreu durante a filmagem?

Não tenho certeza se foi um acidente – acho que o cavalo tinha aquilo guardado para mim. Depois de termos cavalgado bastante nesse dia, e estava correndo tudo bem. Às tantas trocámos de trilho para nos aproximarmos do carro das filmagens, mas os cavalos continuaram a galope, queriam correr. Às tantas o Scout [o cavalo] decidiu saltar por cima de uns obstáculos e aí não sei o que aconteceu, mas sei que foi tudo muito depressa e muito devagar. O esquisito foi que não senti medo nem adrenalina, mas vi tudo com muita clareza: as patas musculosas do cavalo a andarem perigosamente depressa enquanto eu continuava a segurar nas rédeas como um idiota que ainda quer voltar para cima. A certa altura tive de tomar uma decisão: cair ou esperar que um casco partisse a minha cara ao meio? Decidi cair e então, por milagre, o cavalo levantou as patas da frente e não me atingiu. Podia ter me esmagado numa questão de segundos.

Em resultado do seu trabalho neste filme, foi adotado pela nação Comanche. O que isso significou para você?

Nunca tinha sequer sonhado que algo de parecido pudesse acontecer. Agora tenho uma nova família. Esta mulher, LaDonna, é a minha par, como eles dizem em Comanche, e me trata por filho. Quando eles nos acolhem são muito hospitaleiros.

Isto é ainda mais interessante, tendo em conta o que você disse sobre ter sangue índio nas veias.

É verdade. Ainda não acredito que me escolheram. A produção foi abençoada pelos Navajo e os Comanche. Fomos tratados inacreditavelmente bem por estas pessoas maravilhosas e acabámos por estabelecer belas relações com estes povos. LaDonna decidiu que queria me adotar para a nação Comanche e essa foi provavelmente a maior honra que alguma vez me será concedida nesta vida.

Gosta de se manter ocupado – como ator, na música e agora na área da edição de livros. Qual é o plano da sua editora, a Infinitum Nihil?

Estou trabalhando nisso com um amigo. Temos um pequeno acordo editorial com a Harper-Collins. Publicamos o romance perdido de Woody Guthrie [cantor americano de folk que influenciou, entre outros, Bob Dylan], um livro que ele escreveu no fim da década de 40 e guardou numa caixa.

Também está fazendo um documentário sobre Keith Richards. Quando poderemos vê-lo?

Bem, ainda falta tanto trabalho… Temos tantas horas de gravação, nem sei, mas provavelmente perto de 60 horas. É fascinante, mas ainda temos muito para fazer antes de ele poder sair.

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