Johnny Depp Forever
A sua fonte de informações sobre o ator e músico Johnny Depp
Entrevista: “Tornei-me ator porque tinha que pagar o aluguel”
agosto 24, 2015

Johnny fala sobre seu trabalho na nova campanha da Dior, música, quais de seus personagens mais se parecem com ele e muito mais nessa nova entrevista, publicada no suplemento MG Magazine, do jornal espanhol La Vanguardia.

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Aos 52 anos, Johnny Depp continua a ser um ator peculiar, que esconde sua timidez por trás dos personagens mais extravagantes. Seu espírito rebelde fez dele a imagem perfeita do novo perfume Sauvage da Dior.

Por Glenn O’Brien

Sai do carro com o seu colete típico, várias tatuagens, com as mãos cheias de anéis e vários colares que, como amuletos de um xamã, integram-se bem na paisagem desértica e mítica de Joshua Tree, a três horas de Los Angeles. Johnny Depp não perdeu a aura de extravagante e excêntrico que o distingue de outros colegas de sua geração, como George Clooney ou Brad Pitt. Ele é o esquisito, o alternativo. O ator talentoso com jeito de roqueiro, que esconde sua timidez por trás da maquiagem elaborada de pessoas como Edward Mãos de Tesoura (1990), o Chapeleiro Maluco de Alice no País das Maravilhas (2010) ou o capitão Jack Sparrow, da série Piratas do Caribe, tornou-se um fenômeno de massa e acabou com essa invisibilidade pública que tanto anseia.

Ele agora está sob as ordens de Jean-Baptiste Mondino no comercial para um novo perfume masculino da Dior. Sem palavras, apenas os rifs de guitarra de Ry Cooder quebram o estranho silêncio dessas inquitantes paisagens que poderiam ser cenário de um de seus livros favoritos, “On the Road”, de Jack Kerouac. Em um artigo que escreveu para a revista Rolling Stone em 1999, intitulado “Kerouac, Ginsberg, os beats e outros bastardos que arruinaram a minha vida”, o ator dá muitas pistas sobre sua ampla e cultivada auto-cultura. Ali, revela como seu irmão Danny, 10 anos mais velho do que ele, mudou sua rotina para ouvir o álbum Frampton Comes Alive, do guitarrista Peter Framton, Astral Weeks por Van Morrison ou a obra recente de Bob Dylan. Digno filho dos anos sessenta, ele deixou a escola cedo e mergulhou direto para a contracultura de “Howl” de Allan Ginsberg: “Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura …”. Anos mais tarde, confirmando a sua incrível capacidade de fazer amizade com seus mitos, de Keith Richards a Marlon Brando, ele conseguiu que Ginsberg, autor do poema “Don’t Smoke”, o deixasse fumar em seu apartamento no Lower East Side (enfiando a cabeça para fora da janela, é claro).

Johnny Depp tem experimentado muito e rápido. Foi um trabalhador da construção civil, um funcionário de uma estação de serviço, mau mecânico… A música foi seu primeiro amor, e tocando guitarra com sua banda The Kids chegou a abrir o show do agora colega Iggy Pop, no início dos anos oitenta. Este ano, se casou com em sua própria ilha nas Bahamas com a atriz Amber Heard (29). Lá se foram 14 anos com Vanessa Paradis, mãe de seus filhos, Lily-Rose e Jack, e os romance muito públicos com Winona Ryder e Kate Moss, que o fizeram carne de paparazzi.

Original e atraente, é o conquistador com voz arrastada e sussurrante que faz você rir, tenta uma boa conversa e nunca se aborrece, embora talvez às vezes confunda. Heard diz “eu me apaixono por ele continuamente, muitas e muitas vezes” e carrega tatuado em suas costas alguns versos do soneto XVII dos Cem sonetos de amor de Pablo Neruda: “amo-te como se amam certas coisas obscuras, secretamente, entre a sombra e a alma”.

Fiel à sua filosofia e sua devoção à mudança de imagem – “Acho que devemos ao público deixar-nos ver e oferecer algo diferente a cada vez, para não matar-lhes de tédio” – um Depp com o cabelo penteado para trás, com as entradas à vista e nenhum vestígio de um bigode ou cavanhaque, vai estrear no outono em “Black Mass”, com Benedict Cumberbatch e Dakota Johnson, antes de voltar para a pele do Chapeleiro e do pirata. Escuta música quando filma “para definir a natureza do personagem” e admite ter tentado ensaiado papéis, como Willy Wonka de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005), brincando de Barbie com sua filha até que ela lhe disse: “Papai, fale normal”.

Mas devemos voltar ao presente, ao deserto, à música, às luzes e ao perfume para conversar com Johnny Depp sem maquiagem.

Muitas pessoas não sabem que sua estreia artística foi como músico e guitarrista. Que tipo de música fazia?
A coisa mais próxima seria Elvis Costello, The Clash, The Libertines… Sempre me fascinou tocar com slide o velho blues, o do Mississippi. Essa música nasceu como um gênero puramente acústico, mas mais tarde se transformou em algo completamente sem amarras, como fizeram Hound Dog Taylor, Junior Kimbrough e todos os grandes, John Lee Hooker, Lightnin ‘Hopkins… Eu sempre fui um fã de som que é obtido com o slide, embora ouvindo Ry Cooder (que também escreveu a trilha sonora para o anúncio) eu percebi que nunca seria realmente bom. Então, me conformo em tocar velhos clássicos do blues.

Como se tornou um ator, em vez de um músico?
Por coincidência… E porque eu não tinha escolha. Tinha que pagar aluguel e estava lutando como um músico. É o clichê clássico: chega a Hollywood em busca de um contrato com uma gravadora… Nós viemos de South Florida e ao chegaer em Los Angeles, percebemos que estávamos no lugar errado. Estavam na moda todos aqueles grupos com caras peludos, as faixas de cabelo. Nós não estávamos prontos para isso. As gravadoras não queriam nada de punk pop ou esse tipo de música.

E abandonou seu sonho.
Não interessávamos a ninguém. Tivemos um concerto aqui e ali, eram tempos de vacas magras. E, de repente, um amigo queria que eu conhecesse seu agente. Eu fui, mandei um teste e consegui o papel. Esse primeiro filme foi “A Hora do Pesadelo”. É estranho, mas nunca tomei a decisão de me tornar um ator. Fiz isso apenas para pagar o aluguel, pelo menos, os primeiros quatro ou cinco filmes. O cinema não poderia me importar menos. Eu era um músico, guitarrista, e eu queria me dedicar. Mas me meti neste mundo e, 30 anos mais tarde, ainda estou aqui. Estranho…

Você está satisfeito em ter a música como algo secundário?
Eu sempre preferi. Tenho amigos com quem posso compor e gravar. E posso fazer coisas incríveis, como brincar com Paul McCartney. Gosto de ter essa vida paralela, em que não tenho que interpretar, não tenho que falar. Nada, além do que sai do meu cérebro, do coração ou de onde quer que seja, e pelas veias até os dedos. A música é muito simples, visceral. Nunca toca o mesmo solo duas vezes ou o mesmo riff. Para mim, é ótimo tocar assim, porque não se tornou uma carreira. A guitarra ainda é o meu primeiro amor, mas se tivesse a obrigação de tocar, sair em turnê por um ano e ir para casa e ver como meus filhos cresceram sem mim, teria sido diferente. No entanto, eu realmente nunca decidi ser ator. Sigo sem saber o que mais quero ser.

Você atua como toca?
Sim, hoje eu acho que encaro o meu trabalho como ator da mesma forma que toco música. Nunca se repita. Você tem que desafiar a si mesmo para ir mais longe. Fazer barulhos engraçados…

Qual de seus personagens se parece mais com Johnny Depp?
O mais estranho é que todos me habitam, embora não me pareça normal que todas essas personalidades coexistam… eu diria que a coisa mais próxima de mim seria uma combinação de Edward Mãos de Tesoura e Capitão Jack Sparrow. A riqueza desse personagem é que se pode ser o mais irreverente do mundo e as pessoas ainda estão rindo, não se importam. Edward… eu lembro de sentir um vínculo profundo com sua pureza, enquanto lia o roteiro. Um sentimento que me lembrava um cachorro que tive, que me devolvia para o meu amor incondicional por cães. Eu acho que a mistura de ambos os personagens é o clássico conflito entre anjo e demônio.

Como conheceu Hunter S. Thompson, o inventor do jornalismo gonzo?
Através de um amigo mútuo. Ele estava em Aspen e disse: “Venha, venha para uma taberna. Vou ligar para Hunter, virá para estar conosco”. Então eu fui. Estávamos em uma sala na parte de trás do bar, quando de repente a porta se abriu e a multidão se afastou para deixá-lo passar, como a abertura do Mar Vermelho sob o efeito de… eletricidade! Hunter estava carregando um cajado de pastor em sua mão e gritou: “Voltem, bastardos”. Hunter no seu melhor… Se apresentou, nós apertamos as mãos e assim começou uma história de amor e loucura. Hunter era o rei de irreverência!

O interpretou no cinema…
Muitas vezes me perguntei se eu estaria interessado em adaptar para o cinema seu livro sobre Las Vegas. Um dia em Nova Iorque, disse, “Hunter, se eu o interpretar, você pode me odiar até o fim de seus dias”. “Bem, terá que correr esse risco”, me disse. Filho da puta! Então eu fiz isso com prazer. Quando acabamos a montagem do filme, “Medo e Delírio em Las Vegas”, nós o exibimos em Aspen em privado, especialmente para Hunter. Eu estava nervoso. Ele me telefonou e o perguntei: “Você me odeia?”. Ele respondeu: “Nem um pouco! Este filme é a chamada sinistra de uma trombeta no campo depois de perder uma batalha”.

Boa resposta!
Fabulosa! Me deixou boquiaberto.

Conte-nos a história de Tom Waits, quando ele foi à sua casa para ver suas guitarras.
Certa manhã, meu amigo Chuckie (Chuck E. Weiss) me chama e me diz que vem à minha casa para o café com Tom Waits. Eles chegam. Estávamos no meu estúdio. Eu tenho um pequeno estúdio de gravação e muitas, muitas guitarras. É decadente.

Quantas?
Como um milhão! Há verdadeiras jóias, muitas guitarras vintage. Eles estão penduradas em todas as paredes. Então Tom chega, ele olha para elas e diz: “Eu fui a algumas lojas de guitarras vintage, mas haviam esgotado os estoques. Eu posso ver o porquê”. Tom é grande. Um rebelde.

Você garante que já não pode viver em Nova Iorque, porque todo mundo o reconhece. Burroughs costumava dizer que “o segredo da invisibilidade é ver os outros em primeiro lugar”.
Eu tenho uma outra, de Cocteau, dizendo: “Quanto mais me olham, mais desapareço”. Acho de grande beleza.

O que o fez decidir tornar-se uma imagem de um perfume?
Não sei muito sobre moda, me guio mais por minha intuição. Eu posso entender um estilo, alguma estética, e há uma verdadeira elegância em tudo o que a Dior faz, embora esteja imbuído de alguma gravidade. Exatamente como algo selvagem, um pouco extremo. O nome Sauvage significa muito para mim. Acho que evoca alguma forma de humanidade. A humanidade das coisas. Para mim um selvagem é alguém que avança sem compromisso.

John Dryden é o autor da ideia do bom selvagem e foi o grande rival na poesia do conde de Rochester, um personagem que você interpretou em “O Libertino”. Tem feito vários papéis assim.
Sim, e é engraçado ver que todos os que tenho interpretado vivem à margem da sociedade.

Pensava em seu personagem Tonto, de “O Cavaleiro Solitário”. Muitas pessoas perguntam se você realmente tem sangue indígena, e finalmente chegam a questionar a sua legitimidade para interpretá-lo.
Eu tive sorte, a maioria das nações indígenas, particularmente aquelas que trabalharam com a gente, me trataram com respeito. Os Comanches me adotaram e me tomaram em sua nação. Foi decidido pelo chefe, porque tenho sangue índio nas minhas veias, “Eu quero que você seja Comanche”, disse. Em “O Cavaleiro Solitário” era essencial introduzir um toque de humor e algumas piadas, mas para mim era uma questão muito pessoal. Queria denunciar a forma como os índios americanos foram retratados no cinema.

Vejo o o comercial da Dior e me vem à mente “Dead Man”, de Jim Jarmusch. À sua também…?
Claro que me fez lembrar de “Dead Man”, um longo poema filmado. Jim conseguiu fazê-lo transcender, projetar-se para fora de si mesmo. Você entende o que eu quero dizer? Poucas pessoas poderiam tê-lo feito. Gostei de rodar este curta-metragem com Jean-Baptiste Mondino, outro grande poeta. Nós apreciamos a riqueza de não ter qualquer diálogo.

Você tinha trabalhado com Mondino antes?
Não, mas eu o conheci anos atrás. Ele era um amigo próximo de Vanessa (Paradis). Nós tínhamos falado sobre filmar juntos há cem anos atrás. Foi-me dito que quando você trabalha com ele, você se apaixona instantaneamente. Eu caí em suas redes um par de meses antes de começarmos a filmar. Trabalhar com ele é uma experiência de liberdade, uma filmagem sem obrigações. Verdadeiramente livre. Fazer este filme com a Dior foi libertador, como voltar às raízes e tem sido redescobrir coisas paradoxais sobre mim mesmo.

E quanto a cheiros? Tem sua madeleine de Proust [algo que o faça invocar o passado]?
O perfume ocupa um lugar primordial na minha vida. Acho que existem ambientes, humores, ou apenas alguns dias, em que um perfume está alinhado com suas emoções. É como o feito de ter o seu perfume: é seu para sempre, é parte de sua vida.

Fonte | Tradução e adaptação: Cristina – Equipe Johnny Depp Forever

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